Andou por cerca de 100 metros só para poder se certificar de ter se afastado daquele local com memórias tão vívidas e doídas em sua mente. Ela tinha se escondido de si mesma até então e passar tão perto do que queria nunca ter vivido a fez se encontrar imersa numa coberta de nuvens obscuras que metaforizavam a dor de se ver.
Pensou em sua avó. Era bonita a ideia de só ter que pensar e não, de fato, concretizar a visão dolorosa de uma vida que se foi. Arrependeu-se em seguida de não querer para si uma vida que já se fora há tempo. Pensou em por que temos a mania insaciável de nos policiar para nós mesmos dos desejos que dizem ser ruins (talvez seja culpa de vidas passadas; talvez seja medo do ímpeto que podemos despertar fazendo o que bem queremos). Resgatou-se dos pensamentos adversos e olhou para os lados, atônita pela quantidade de rostos desconhecidos, mas que são tão familiares. Familiares porque possuem a feição que acostumamos o nosso olhar a normalizar.
Tirou do paletó uma caixa já esquecida lá, pois fazia tempo que não usava a peça. As luzes urbanas sobrepunham o céu que queria brilhar também. Abriu a caixa em meio às luzes em disputa e deparou-se com um objeto costumeiro de sua avó. Sim, a mesma avó deixada de lado em pensamentos cansativos demais para existirem numa sociedade que se diz moral. Era um broche antigo. Conservava a aparência de algo valioso, mesmo sabendo que a tal pessoa não gostava de joias e temia a si mesma o tempo todo por isso. Contou as lacunas charmosas que compunham o espaço vazio da peça e guardou-a em seguida para poder continuar a andar.
Chegou em casa e chorou. Chorou sem saber por que chorava. Podia ser um motivo, podiam ser vários. O lugar, a rua, os rostos, o paletó, as luzes, a avó, as lacunas. Era isso, enfim. As lacunas.
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